A natureza do fenómeno Christopher Nolan é tal que, como um buraco negro, ele absorve para a sua massa gravitacional tudo o que para si se orienta, mesmo que criticamente, destino a que também este texto decerto não escapará. Uma das facetas desse fenómeno é a rasura da própria história do cinema, como se, no caso vertente, o enfrentamento da Odisseia se desse pela primeira vez, ou como se todas as tentativas anteriores fossem pálidas ante esta, que faria “subir a fasquia” para um patamar inabordável pela concorrência. De facto, ocorre exatamente o oposto, mas é manifesto que as abordagens anteriores (por razões não estritamente cinematográficas, na sua maioria) não tiveram o impacto da de Nolan, patente desde logo no número de intervenções de classicistas e no debate público em torno da obra. E é ainda mais duvidoso que essas abordagens anteriores tenham levado tantos espetadores a ler Homero, argumento supostamente definitivo para muitos dos defensores do filme, apesar do seu carácter contraditório, já que faz do acesso ao clássico adaptado o critério de sucesso de um filme que mantém com esse clássico uma relação, digamos, conjetural.
Convém esclarecer que não existe qualquer questão do irrepresentável em Nolan, seja ele a física quântica em Interstellar, o Mal nos vários Batman ou o mito na Odisseia. Neste último caso, é manifesto que o seu antecedente maior é a tradição do Peplum italiano, que nunca sofreu estados de alma quando se tratou de dar rosto a deuses e heróis lendários. Basta comparar a sua versão com a que Jean-Luc Godard produziu a partir do romance de Alberto Moravia dedicado a uma tentativa de adaptação da Odisseia ao cinema, O Desprezo (1963), realizada em pleno ciclo dourado do Peplum e que, de resto, aproveita os adereços escultóricos dessas produções para representar esquematicamente deuses e heróis, em lentos movimentos panorâmicos de câmara, como se não fosse possível, nem sequer desejável, ir além disso. O mesmo ocorre também nos breves planos do mar e céu azuis de Capri, como se o filme de Godard confiasse ao cromatismo, à imponência das panorâmicas e à saturação melódica da música de Georges Delerue o poder epifânico daquilo que suspende a possibilidade da narrativa em favor de um dispositivo de abertura radical. A questão da representação do mundo grego é a questão do filme de Godard, todo ele enredado em discussões entre o produtor americano, o realizador austríaco (Fritz Lang) e o guionista francês sobre Homero e as dificuldades da sua adaptação ao cinema: “O mundo de Homero é um mundo real”, proclama Lang num longo passeio com Piccoli. Continue reading